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O DESIGN COMO FERRAMENTA PARA O INCREMENTO COMPETITIVO DA JOALHERIA BRASILEIRA


Eduardo Barroso Neto*



A noção de design tem sido utilizada de modo equivocado e insuficiente pela mídia em geral. Sua verdadeira importância reside na sua capacidade de contribuir para o incremento competitivo dos produtos manufaturados, qualquer que seja o segmento industrial, assim como na produção de imagens e mensagens capazes de consolidar o posicionamento de uma empresa ou região no mercado.

A supervalorização da dimensão estética do design esconde suas outras dimensões que procuraremos explorar a seguir.

  1. A dimensão estratégica / Produtos são fontes de divisas e geradores de riqueza para uma nação

    Vivemos hoje em uma economia globalizada onde o desenvolvimento de uma nação depende da oferta de produtos e serviços competitivos. Fechar os olhos para as oportunidades existentes no comércio mundial significa dependência e estagnação econômica.

    Para competir e medir forças em um mercado cada vez mais agressivo as empresas podem fazê-lo através da redução de custos e conseqüentemente da redução dos preços finais dos produtos ou através da diferenciação qualitativa

    Para um país como o Brasil, que possui elevados custos estruturais, competir apenas com estratégias defensivas baseadas na redução de custos de produção é uma alternativa bastante arriscada, principalmente quando seus concorrentes são alguns dos países asiáticos, cujo valor médio da mão-de-obra é consideravelmente mais baixo; a carga tributária muito menos sufocante e o acesso aos mercados compradores muito mais facilitado em função das medidas adotadas por suas políticas industriais.

    A reengenharia empresarial e a reconversão tecnológica adotada principalmente pelas empresas brasileiras produtoras de bens de consumo, sobretudo nas duas últimas décadas, não conseguiram ainda aumentar a capacidade competitiva como se esperava, e em contra-partida colaborou com o aumento das taxas de desemprego e limitou os mercados compradores.

    Escolhemos mal nossos adversários dentro da arena do disputado mercado mundial. Ao invés de competir na base do preço as empresas devem buscar a diferenciação qualitativa agregando valor aos seus produtos e serviços, conquistando o coração e a mente dos consumidores, oferecendo algo singular, distinto e exclusivo.

    As grandes tendências mundiais apontam para uma acentuada polarização, colocando em posições opostas empresas e serviços de padrão mundial e empresas e serviços de conteúdo temático ou de forte identidade cultural. As empresas que permanecem entre os dois extremos estão perdendo seus clientes que não desejam produtos híbridos e indefinidos.

    O incremento competitivo dos produtos brasileiros deve, portanto, ser conseguido pela diferenciação qualitativa obtida com a agregação de valor e aumento do valor percebido pelos consumidores. Produtos com uma indicação de sua procedência e que remetam a cultura e aos valores de sua região são atualmente melhor diferenciados e valorizados no mercado global, sempre ávido por novidades.

  2. A dimensão antropológica / Produtos são componentes culturais

Esta diferenciação pode ser conseguida explorando-se de modo apropriado os elementos mais singulares da cultura material e iconográfica de cada região, expressos em sua fauna, flora, folclore, meio ambiente, paisagem construída e nos artefatos do cotidiano, traduzindo assim os traços da brasilidade em peças singulares e de forte valor estético e cultural. Uma das características culturais mais fortes do Brasil é seu sincretismo religioso e a miscigenação racial que ajudaram a formar uma cultura única e singular, fornecendo um rico universo de referências.

Outro caminho necessário a ser trilhado na busca deste patrimônio intangível é conhecer a memória afetiva das pessoas, suas lendas, tradições, os usos e costumes. Transmitidos de geração a geração, dão as pistas da história cultural de uma determinada região permitindo a reconstrução de sua verdadeira identidade.

A identidade é o amálgama cultural que torna possível fazer com que as pessoas se conheçam entre si e se reconheçam individualmente, criando ou recriando seu universo de sonhos e necessidades, exprimindo suas crenças e desejos, exteriorizando uma visão única e singular do mundo que as rodeia.

Projetando na matéria os gestos, as imagens, as cores e as marcas de seu universo simbólico os designers, os artistas e os artífices, fazem uma afirmação sobre suas origens, contando parte de sua trajetória cognitiva, e dando indicações sobre prováveis destinos.

3. A dimensão antropológica / Os produtos e sua fruição.

Qualquer produto deve ser pensado em função daquele que irá dele usufruir. Portanto, definir o público alvo (consumidor visado) deve ser a primeira tarefa de um designer, não importando qual seja a categoria do produto que esteja projetando.

A maior fonte de inspiração do designer é o comportamento humano. As necessidades e carências não satisfeitas são a grande motivação para quem projeta, quem produz e quem comercializa.

Os consumidores podem ser agrupados em "tribos urbanas" com um estilo de comportamento próprio, com valores estéticos, ícones, mitos e características singulares.

Para saber se um produto está de acordo com seu público alvo é necessário considerar as características dos públicos antagônicos. Um exercício prático consiste em desenhar uma linha imaginária sobre a qual evidenciem-se os comportamentos opostos. Se um determinado tipo de consumidor visado estiver em um extremo desta linha, no outro extremo estará seu grupo antagônico. E no meio não haverá ninguém. Esta zona intermediária é o espaço da mediocridade, das indefinições, dos produtos que não agradam a ninguém, pois não possuem personalidade, não se arriscam, não ousam e não inovam.

Apenas como o objetivo de ilustrar estas afirmações seguem alguns exemplos de perfis de consumidores hoje existentes:

  • Os Metrosexuais: Neologismo criado em 1994 pelo jornalista inglês Mark Simpson para definir os homens supostamente heterossexuais, porém conectados com a moda, vaidosos e sem preconceitos. Adotam acessórios ultra-modernos e investem em jóias de design contemporâneo.
  • Os Agrosexuais: Neologismo proposto para o grupo antagônico aos metrosexuais. Define aqueles indivíduos que se convencionou chamar, meio jocosamente, de agroboys ou agrogirls. São jovens ruralistas, românticos, apegados aos valores tradicionais, moralistas e provincianos, que adotam uma estética country americana como paradigma de gosto. As jóias e adornos são elementos de definição social e de status.
  • Os Nostálgicos: Conservadores, tradicionalistas e saudosos, estão sempre fazendo uma releitura de épocas passadas. Investem preferencialmente em jóias e acessórios que remetam aos estilos de época.
  • Os Visionários: Vanguardistas, excêntricos, inovadores e ousados. Lançam moda e ditam tendências. Para estes as jóias servem como afirmação de seu inconformismo com os padrões estéticos vigentes.
  • Os Intimistas: Apegados à família e aos valores morais, retraídos, tímidos, preservam sua privacidade e evitam a exposição pública. Compram jóias como investimento e para celebrar momentos pessoais.
  • Os Mediáticos: Belos, charmosos, hedonistas, vivem da super exposição na mídia e sua vida pública e privada se misturam. As jóias e adornos são como uma moldura complementar para o corpo. Devem ter uma aparência que possa ser valorizada pelo olhar eletrônico.
  • Os Contemplativos: Minimalistas, sensitivos, discretos, afetuosos e sensíveis. Para estes as jóias são feitas, não somente para olhar, mas para serem tocadas e sentidas. Dotadas de energia própria as jóias trazem promessas de paz, cura e serenidade.
  • Os Vencedores: São pessoas resultantes da mobilidade social que com seu próprio esforço conseguiram conquistar uma carreira e sucesso profissional. Disciplinados e agressivos, dotados de grande auto-estima e personalidade marcante, as jóias são como uma certificação de seu êxito.
  • Os Esportistas: Cultivam o corpo e a vida saudável, acelerados, bem dispostos, despojados. Preferem jóias que realcem seu corpo e chamem atenção para sua forma física e espírito saudável.
  • Noctívagos: Boêmios, gregários, sociáveis e bem humorados, hedonistas e gastrônomos. As jóias noturnas, que brilham na luz negra das discotecas e dos bares da moda são suas preferidas.
  • Os Integrados: Seguidores de moda e das tendências, supervalorizam os aspectos simbólicos e de afirmação social. As jóias são indispensáveis e devem estar esteticamente relacionadas com os últimos lançamentos da moda. Consumidores compulsivos as jóias são produtos de vida efêmera.
  • Os New-Age: Crenças e utopias futuristas, comportamentos alternativos, valores compassivos. Jóias são como uma segunda pele e remetem à noção de permanência e longevidade.
  • Os Ultra-pragmáticos: Neologismos proposto para os emergentes sociais que tiveram rápida ascensão social em virtude de sua personalidade marcante e desejo de vencer a qualquer preço. Para estes as jóias são o testemunho material de suas conquistas.
  • Os Extra-sensoriais: Possuem uma percepção diferenciada do tempo e do mundo e por isto focalizam-se nos detalhes sutis das coisas. Por serem mais contemplativos e poéticos preferem as jóias capazes de penetrar em sua aguçada sensibilidade.

    Estes grupos acima descritos são apenas frutos de uma observação empírica cujo único intuito é demonstrar a tese da multiplicidade comportamental dos consumidores e da importância da focalização no desenvolvimento de um produto.

4. A dimensão prática

Os critérios e requerimentos utilizados no ato de projetar devem incluir também considerações sobre os valores atribuídos ou percebidos pelos consumidores, que podem ser:

  • Valor intrínseco (constituído pelo custo do material utilizado).
  • Valor de uso (a relação entre o custo de aquisição e o benefício proporcionado no uso do produto).
  • Valor simbólico (consiste no valor agregado e na dimensão cultural, que são os elementos capazes de servirem como forma de identificação, diferenciação ou afirmação social).
  • Valor afetivo (conformado pela carga emotiva que o produto carrega e pelas lembranças que ele é capaz de proporcionar).

Um bom produto deve ainda obedecer aos seguintes requerimentos:

1. Conceito / Um produto (qualquer que seja) deve existir primeiro no domínio das intenções. Deve deixar transparecer sua finalidade e razão de existir.

2. Eficiência / Qualquer produto deve responder satisfatoriamente às exigências de uso (satisfação, segurança, durabilidade, conforto, cumplicidade, custo/benefício, entre outras)

3. Simplicidade / O mais difícil não é fazer o mais complicado. Design é mais inteligência com menos matéria.

4. Surpresa / Um bom produto não pode deixar ninguém indiferente. A surpresa, a admiração e o encantamento devem ser o elemento definitivo que justifiquem as escolhas. Um bom produto é aquele que as pessoas nunca esquecem, são memoráveis e eternos.

Gostaria de propor um grande desafio: pensem em uma jóia, de tal maneira sedutora, que seja capaz de conquistar mesmo aqueles que não têm o hábito de comprá-las. O consumidor mais desejado é aquele que não se deixa seduzir facilmente.

 


*Eduardo Barroso Neto é designer gráfico e industrial, formado pela Fuma-MG, com mestrado em Urban Design pela Ecal, na Suíça. Desenvolveu mais de 100 projetos de produtos, sendo o mais conhecido a garrafa do ano 2000 para a empresa francesa Vittel - projeto exposto no Centro George Pompidou. Participou como conferencista em mais de 150 eventos técnicos científicos nos 5 continentes. Conselheiro regional do ICSID. Atualmente diretor da empresa de consultoria e design Barroso Design Ltda, com sede em Florianópolis. barrosodesign@click21.com.br

** O artigo publicado nesta página foi tema de palestras proferidas nos Fóruns de Designers promovidos pela AngloGold, em maio de 2004.